Mudanças repentinas: por que nos desestabilizam e como a psicanálise pode ajudar?
- Alcir Ribeiro de Souza
- 1 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Por Alcir Psicanalista
Psicanalista Clínico | Administrador | Educador

Você já se sentiu perdido diante de uma mudança inesperada?Uma demissão. Um término. Uma doença. Uma reviravolta financeira.Mudanças fazem parte da vida, mas nem sempre estamos emocionalmente preparados para elas.
Do ponto de vista da psicanálise, essas transformações têm um impacto profundo na nossa estrutura psíquica, especialmente quando rompem com aquilo que nos dava uma falsa sensação de controle.
O que a psicanálise nos ensina sobre mudanças?
Sigmund Freud (1914) foi um dos primeiros a mostrar que o inconsciente busca manter padrões repetitivos, mesmo quando estes nos causam sofrimento. Isso é o que ele chamou de compulsão à repetição: a tendência inconsciente de manter o familiar, pois o novo — mesmo positivo — representa uma ameaça à estabilidade psíquica.
É por isso que mudanças repentinas costumam gerar:
Ansiedade e angústia sem causa aparente;
Sensação de perda de identidade ou controle;
Sintomas físicos como insônia, cansaço, dores;
Reações impulsivas ou paralisia emocional.
Winnicott (1965) complementa essa visão dizendo que nosso equilíbrio emocional depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de nos oferecer continuidade. Quando a realidade muda bruscamente, essa base se rompe — e o Eu pode entrar em colapso se não tiver suporte.
A mudança como oportunidade de elaboração
Apesar da dor, a psicanálise não vê a mudança como algo apenas negativo. Pelo contrário: ela pode ser uma porta simbólica para transformação e amadurecimento emocional.
Wilfred Bion (1962) dizia que o pensamento nasce da frustração. Ou seja, é diante do sofrimento que somos forçados a pensar, reorganizar, simbolizar. E nesse ponto, o processo analítico pode ser decisivo.
Como a psicanálise pode ajudar?
O setting analítico funciona como um “espaço de elaboração” das perdas e rupturas. Ao escutar suas próprias palavras sob a escuta de um analista, o sujeito pode:
Compreender o que aquela mudança está desorganizando internamente;
Identificar padrões de repetição que o mantinham preso;
Dar sentido ao sofrimento, ao invés de apenas reagir a ele;
Resgatar sua capacidade de escolher, criar e se adaptar.
Freud (1930) já dizia que o papel da análise não é livrar o sujeito do sofrimento, mas ajudá-lo a lidar melhor com ele.
Conclusão
Mudanças repentinas fazem parte da vida. Mas quando compreendidas sob a luz da psicanálise, elas deixam de ser apenas crises... e podem se tornar marcos de crescimento pessoal.
Se você está passando por um momento de transição e sente que algo dentro de você se desorganizou, talvez seja o momento de olhar para isso com mais profundidade.
A análise pode te ajudar a transformar o caos em maturidade emocional.
Referências (ABNT)
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
WINNICOTT, Donald. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
BION, Wilfred. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.



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